
Por António Girôto
Quando no fim de Setembro de 97 entrava no Seminário de Resende não fazia parte dos meus objectivos escrever, um dia, este texto. O miúdo que dava o maior passo da sua vida, que logo no início parecia maior que as pernas, não tinha como preocupação a sua vocação. Mais tarde ouviria o Sr. Vice-Reitor, Cónego Esteves, falar da importância de dizer sim aos amigos, nomeadamente ao Amigo Maior, isto é, de fazer a vontade não apenas dos meus colegas e amigos de caminhada, mas sobretudo de Jesus que me dava a mão para percorrer um caminho que ele próprio tinha traçado para mim. Mas que caminho? Era essa a pergunta que resumia os meus primeiros anos naquele lugar e que me fez pensar na vontade de Deus para mim.
O mundo avança sempre que alguém diz sim a Deus, aceita a sua vontade, corresponde ao seu chamamento que nos fará felizes não apenas na meta, mas durante todas as etapas que temos de percorrer. A decisão de dizer sim a este projecto que Deus tem para mim, ser Padre na sua Igreja, aparecia depois de longa reflexão pessoal, das conversas de um homem pequenino com um Deus grande e também pela mediação da Igreja nomeadamente no papel desempenhado pelo director espiritual.
O caminho que já estava iniciado ganhava com esta decisão uma nova luz, mas intensa, tantas vezes escondida pela poeira que se levantava, mas com a certeza que permanece. Continuo a ver essa luz cada vez mais forte e perto que não alcançarei na ordenação, mas verei cada vez melhor à medida em que for percorrendo o caminho.
Ser padre… que missão…
É ser Sacerdote em primeiro lugar. Homem de oração pessoal e comunitária, da liturgia nomeadamente da Eucaristia de que se alimentará e com que saciará o Povo de Deus. Que procura a sua santificação e a dos outros como fim essencial de cada um. È rezar a Deus pelos homens e lembrar os homens que existe um Deus que os ama imensamente. É agir na pessoa de Cristo não sendo um simples intermediário, mas sem nunca deixar de ser instrumento. É tornar Jesus visível no ministério e na vida, é ser Jesus para os que encontramos.
É ser Profeta! Alimentar-se da Palavra de Deus e lançá-la para o mundo não como quem semeia centeio mas pessoa a pessoa como quem planta uma árvore. Ser pregador da Palavra, aluno e formador para todos crescermos no conhecimento de Deus a partir d’Ela. Conhecendo-O, amámo-l’O. A partir da Palavra ensina a rezar, rezando.
É ser Rei! Não como um Senhor majestoso, mas como servo. Vivendo a caridade em cada momento e em todos os lugares. Ser bom pastor cujo modelo, Jesus, há-de imitar principalmente na caridade e preferências pastorais. È servir a todos discriminando positivamente os preteridos da sociedade, os abandonados, os pobres, tantos idosos que serão aqueles que primeiro o padre que vou ser terá de amar.
Tudo isto exige uma especial consagração a Deus, liberdade plena, que passa também pela vivência dos conselhos evangélicos. Sendo pobre reconhece que tem necessidade dos outros, que está desprendido e disponível e portanto livre para servir. Sendo casto ama mais e melhor, ou seja, ama mais pessoas e de uma forma mais profunda, assim é livre para amar. Sendo obediente amará aqueles que tiverem a difícil tarefa de presidir e aceitará a sua vontade por se tratar da própria vontade de Cristo, ficando livre para viver. Tudo isto a partir do incompreendido celibato, difícil e dificultado, mas também caminho de liberdade conhecidas as suas razões cristológicas, eclesiológicas e também escatológicas.
“Que todos sejam um” (Jo 17,21) é mais um mandamento que será o centro do meu ministério sacerdotal. A Unidade a partir da comunhão será uma preocupação constante. A Unidade é ser Jesus, é vê-lo no outro, é tê-lo entre nós, é viver da sua presença no nosso meio, garantia de felicidade, de alegria e de paz. Assim construiremos não apenas um castelo interior com várias moradas, mas também um castelo exterior em que os outros serão o lugar em que encontramos Jesus.
Termino traçando para mim a missão da Mãe de Jesus, tão necessária nestes tempos de “exculturação” do cristianismo. É necessário voltar a dizer sim a Jesus, recebe-l’O em nós, gerá-l’O, para depois o podermos dar à luz, a todos os homens, com a certeza de que se o perdemos é porque nos afastamos de seu Pai, onde Ele está. Que Deus Pai me ajude nesta missão, que é como quem diz, que eu me coloque nas Suas mãos e morra constantemente para a minha vontade. Assim …
“Ut unum sint” (Jo 17,21)
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